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Sua equipe usa IA. Você sabe o que ela está colando no chat?

Um levantamento da Check Point Research coloca a América Latina na liderança do risco de exposição de dados em ferramentas de IA. Na maioria das vezes, o problema está no que a própria pessoa cola na conversa, e dá para reduzir isso com combinados simples.

12 de outubro de 2026 · José Lazarete Júnior

segurançainteligência artificialproteção de dados

Fim de expediente. Alguém da equipe precisa mandar mensagem de aniversário para os clientes do mês, abre a planilha, copia a lista inteira (nome, telefone, data de nascimento, quanto cada um já gastou na loja) e cola numa ferramenta de inteligência artificial pedindo textos personalizados. Dois minutos depois, as mensagens estão prontas. Ninguém pensou duas vezes antes de apertar enviar, e é exatamente sobre esse clique que eu quero conversar.

Publiquei aqui um texto sobre a pesquisa do Sebrae com o Meta Instituto, que encontrou 52% dos negócios de micro e pequeno porte do país usando IA num recorte de duas semanas. Esse número tem um outro lado, que apareceu em outro levantamento, divulgado em 09/10/2026.

O que o estudo encontrou

A Check Point Research, divisão de pesquisa de uma empresa de cibersegurança, analisou pedidos enviados a ferramentas de IA generativa em redes corporativas, no relatório sobre julho e agosto de 2026. Segundo o levantamento, divulgado com exclusividade pela CNN Brasil, a América Latina teve a maior proporção de pedidos com alto risco de expor informação sensível: um em cada 29, cerca de 3,5% do total. A América do Norte ficou em 3,1%, a Europa em 2,5% e a Ásia-Pacífico em 2,4%.

Três e meio por cento parece pouco até a gente lembrar quantas vezes por dia uma ferramenta dessas é usada. No relatório de setembro, divulgado em 08/10/2026, a mesma empresa contou em média 131 pedidos por usuário no mês, e a América Latina continuou na frente, com um pedido de alto risco a cada 25 (4%). Esses números vêm de redes corporativas e não dá para transportá-los direto para uma loja de bairro, mas a lógica vale para qualquer tamanho de operação: uma taxa pequena, multiplicada por muitos pedidos, deixa de ser exceção.

O risco mora no copiar e colar

O detalhe que mais me chamou atenção está num relatório anterior da mesma empresa, o de junho. A Check Point afirma que, nesse caso, o risco não vem de criminosos usando IA nem de falhas dos modelos. Vem do conteúdo que os próprios usuários colocam na conversa.

Isso muda a natureza do problema. Quem trabalha com infraestrutura conhece esse roteiro: muitos problemas de segurança começam com alguém bem-intencionado resolvendo uma tarefa pelo caminho mais curto, sem nenhum invasor genial envolvido. A boa notícia é que hábito se corrige com combinado, e combinado não custa nada.

O que conta como dado sensível nesse contexto

Sem juridiquês: tudo o que identifica uma pessoa ou abre uma porta da empresa. Nome junto com telefone ou endereço, CPF, histórico de compras ligado a um nome, dados bancários, senhas e acessos de sistema. A Lei Geral de Proteção de Dados trata a maior parte disso como dado pessoal, e informação de saúde entra numa categoria mais protegida ainda, o que pesa muito para clínicas, consultórios e farmácias.

Colar esses dados numa ferramenta externa significa entregar uma cópia a um terceiro. A empresa que coletou a informação continua responsável por ela, mesmo depois que a conversa termina. Também vale lembrar que cada ferramenta tem regras próprias sobre guardar o histórico e usar o conteúdo para treinar modelos, e essas regras mudam com frequência. Antes de confiar, olhe as configurações da conta que a empresa usa.

A mesma lista de aniversários, sem expor ninguém

O exemplo do começo (hipotético, mas bem comum) tem uma saída simples. Em vez de colar a planilha inteira, a pessoa envia só o que a IA precisa para escrever: o primeiro nome e um perfil curto, como "cliente fiel, prefere vestidos" ou "fez a primeira compra em agosto". A ferramenta devolve os textos, e o telefone de cada cliente entra depois, na própria planilha ou no sistema de envio.

O resultado fica praticamente igual. A diferença é que a base de clientes continua dentro de casa.

Dá para aplicar a mesma ideia em quase tudo: resumir uma reclamação sem o nome de quem reclamou, pedir ajuda com um orçamento trocando o nome do cliente por "Cliente A", revisar um contrato depois de apagar CPF e endereço.

Um combinado que cabe numa mensagem fixada

Não precisa de uma política de vinte páginas. Algumas regras claras, fixadas no grupo interno da equipe, já resolvem a maior parte:

  • Nunca colar CPF, RG, dados bancários ou de cartão, senhas ou acessos.
  • Nunca colar nome junto com telefone ou endereço.
  • Em negócios que lidam com saúde, nenhuma informação clínica ligada a uma pessoa identificável.
  • Trocar nomes reais por apelidos antes de colar qualquer coisa.
  • Usar a conta da empresa, com as configurações de privacidade revisadas, e não a conta pessoal de cada funcionário.

A parte mais trabalhosa é a primeira conversa com a equipe. Depois de algumas semanas, apagar o nome antes de colar vira reflexo.

O que o estudo não responde

É bom ser justo com os números. O levantamento olhou para redes corporativas monitoradas por uma empresa de segurança, então não retrata exatamente a rotina de um escritório com três pessoas, e a definição de "alto risco" é da própria Check Point. Ainda assim, a direção bate com o que se vê no dia a dia: a inteligência artificial entrou na rotina das empresas antes de qualquer combinado sobre o que pode entrar nela.

Na sua empresa, alguém já parou para definir o que pode e o que não pode ir para uma ferramenta de IA? Se a resposta for não, a próxima reunião de equipe é um bom lugar para começar.

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